Resenha do livro "A Revolução dos Bichos"

Quando a retirada do opressor dá a oportunidade para o oprimido oprimir.

Foto autoral

Desde que iniciei a escrita das resenhas, muito tenho variado nos gêneros de leitura. Através de recomendações cheguei até o livro de hoje. Um clássico da literatura mundial que merece ser lido.

A “Revolução dos Bichos”, publicada em 1945 por George Orwell, pseudônimo para Eric Arthur Blair, um dos escritores mais importantes do século XX, retrata em uma fábula de aproximadamente 100 páginas, escrita em forma de alegoria, uma forte crítica a Revolução Russa e ao Socialismo Stalinista por violar os ideais elaborados por Karl Marx.

Esta foi a segunda obra que li de Orwell, portanto já imaginava o que estava a minha espera. Como em “1984”, a “Revolução dos Bichos” é um livro que trata de problemas complexos através de uma linguagem simples e envolvente.

A Granja do Solar

Tudo começa quando em uma granja um porco ancião tem um sonho e o conta a todos os outros animais. Este acontecimento vem para alertar sobre as péssimas condições de trabalho e todas as situações de exploração submetidas pelos humanos. Com isso, um movimento de libertação se inicia e da a origem a Revolução dos Bichos.

Uma vez que todos se revoltam e expulsam os humanos da fazenda, um ar de esperança toma conta, mas não dura muito tempo. Rapidamente os porcos assumem a liderança por serem considerados os animais mais inteligentes da Granja do Solar, como era chamada.

Com isso, é possível perceber as relações diretas que o autor faz com a forma como vivemos em sociedade, onde muitos precisam de uma liderança para conseguir se situar e seguir a vida.

Ao passar do tempo, a situação vai ficando cada vez pior, as condições de trabalho mais exploratórias e o dia-a-dia mais difícil. No entanto, desde que a revolução acontece, os porcos iniciam um processo de lavagem cerebral através de hinos, desenvolvimento de slogans como “quatro pernas bom, duas pernas ruim” em critica aos humanos e a criação de mandamentos para reger a vida dos animais.

  • Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo;
  • Qualquer coisa que ande sobre quatro pernas, ou tenha asas, é amigo;
  • Nenhum animal usará roupas;
  • Nenhum animal dormirá em cama;
  • Nenhum animal beberá álcool;
  • Nenhum animal matará outro animal;
  • Todos os animais são iguais.

Assim, por mais que alguns percebam o declínio na qualidade de vida, ninguém questiona ou se opõe, pois todos são ignorantes, alienados e desprovidos da inteligência dos porcos. Podemos relacionar essa passagem com a sociedade vivendo sem uma educação de qualidade, independente do momento em que ela esteja, pois além da falta de educação, temos uma maioria esmagadora da população consumindo conteúdos fúteis na televisão e principalmente nos celulares. Decorrente disso, aos poucos perdemos nossa capacidade de discernir e argumentar.

Por estes e outros motivos que Orwell é considerado um autor que estava com a mente a frente do seu tempo. Sempre trazia críticas atemporais fantasiadas de romance, fábula ou ficção. Este livro, por exemplo, interpreta-se também como a hipocrisia da tirania, onde a retirada do opressor dá a oportunidade para o oprimido oprimir.

A hipocrisia da tirania: a retirada do opressor dá a oportunidade para o oprimido oprimir.

Esta ficção, assim como 1984, tenta alertar sobre o perigo da instação de um regime totalitarista na sociedade como um todo quando existe alienação. Basta um deslize para que um líder esperto consiga coordenar as massas para chegar ao topo e então se desfazer de todos os seus ideais em nome da ganância do poder.

Representado assim pelo sétimo mandamento "Todos os animais são iguais" que ao chegar no final do livro se torna "Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que outros".

A Revolução dos Bichos ficou conhecida no mundo todo e, em decorrência de suas mensagens subliminares, foi proibida em muitos países. Já em outros, como os Estados Unidos, durante a guerra fria onde o mundo era polarizado entre capitalismo e socialismo, foi usado como uma “arma” contra o comunismo onde foi distribuído em larga escala pela CIA.

Como este é um livro pequeno e fácil de ler, não quero dar muitos detalhes para não estragar seu momento de leitura. Aproveite, pois tem um final fantástico! Estou aqui somente para compartilhar e reforçar a importância que esta obra tem no nosso desenvolvimento crítico como sociedade. Seja na música, através da homenagem do Pink Floyd com o album Animals, no cinema ou na literatura ao empoderar outros autores a transmitir sua mensagem com elegância e incisão.

Por fim, sempre há a possibilidade de considerar esta história apenas uma fábula, mas é impossível ignorar que durante estes mais de 50 anos não vivemos em nenhuma granja coordenada por porcos totalitários.

Espero que este texto tenha contribuído de alguma forma com o seu crescimento e caso leia o livro, não se esqueça, me conte o que achou!

Forte abraço,
– Stéfano B. Girardelli.

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Stéfano Girardelli

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